Recentemente a UFSM realizou uma web conferência com título “O efeito da Covid-19 na economia brasileira”. Nela participaram Roberto Requião, ex-Governador e ex-Senador do Paraná, Luiz carlos Bresser Pereira, ex Ministro da Fazenda e José Luis Oreiro professor da UnB.

José Luis Oreiro é co-organizador do livro “Moeda e Sistema Financeiro: Ensaios em homenagem a Fernando Cardim de Carvalho”, publicado pela Editora UFSM em 2019.

Considerando os levantamentos apontados na obra e a economia atual brasileira, a equipe da editora elaborou algumas questões ao professor José Luis Oreiro que tange estes dois assuntos.

 

Confira a entrevista abaixo...

Ed: Atualmente a teoria pós-keynesiana ainda é mencionada, segundo os críticos, por apenas rejeitar teses e não apresentar soluções? 

José Luis Oreiro: Em 1979 o economista neoclássico Robert Solow ao escrever um artigo sobre o estado da arte da macroeconomia se referiu a teoria pós-keynesiana como “um estado de espírito” em função da multiplicidade de abordagens que se auto denominavam de pós-keynesianas; mas que não se compartilhavam um arcabouço teórico unificado. Desde então um notável progresso foi obtido no sentido de unificar as diversas vertentes do pensamento pós-keynesiano. Com efeito, os assim denominados modelos de consistência entre fluxos e estoques (stock-flow consistent models), elaborados a partir das contribuições seminais de Wyne Godley, fornecem uma estrutura contábil consistente na qual é possível incorporar as diferentes vertentes da escola pós-keynesiana por intermédio de “fechos” alternativos para o sistema de equações comportamentais. Isso foi um avanço notável. Esses modelos têm sido crescentemente usados por uma série de pesquisadores para tratar de temas diversos como a análise de diferentes regimes fiscais, o impacto de mudanças na distribuição de renda, a financeirização e, mais recentemente, as questões relacionadas a sustentabilidade ambiental. Esses modelos permitiram resolver, em larga medida, o problema da separação entre as teorias pós-keynesianas do crescimento e distribuição - desenvolvidas a partir das contribuições originais de Nickolas Kaldor, Luigi Pasinetti e Joan Robinson – e a teoria monetária pós-keynesiana – desenvolvida a partir dos trabalhos de Paul Davidson, Hyman Minsky e Jan Kregel – apontado por Kregel em seu artigo de 1985 no American Economic Review.  É claro que ainda existem muitas divergências. Nos últimos anos tem ocorrido um intenso debate sobre o assim denominado “princípio da instabilidade” de Harrod e suas implicações para a teoria do crescimento e distribuição de renda. Autores como Peter Skott defendem que o problema da instabilidade só pode ser adequadamente tratado por intermédio de modelos nos quais (i) a velocidade de ajuste dos preços a choques de demanda seja superior a velocidade de ajuste das quantidades, o que implica na endogenização da distribuição funcional da renda; (ii) a velocidade de ajuste da acumulação de capital às variações da demanda agregada seja superior a velocidade de ajuste da poupança agregada. Tais modelos deverão apresentar instabilidade local (no entorno da posição de steady-state); mas estabilidade global de forma que a economia deverá apresentar uma dinâmica caracterizada por crescimento cíclico, ao invés de uma trajetória de crescimento balanceado. Autores como Lavoie rejeitam esse tipo de abordagem, mantendo-se fiéis aos modelos neo-kaleckianos tradicionais onde (i) a distribuição de renda é exógenamente determinada e (ii) os processos dinâmicos são localmente estáveis, de forma que a economia irá convergir para uma trajetória de crescimento balanceado no longo-prazo. Esta é ainda uma questão em aberto no paradigma pós-keynesiano. 

Ed: Em relação a incerteza não probabilística, o quanto ela interfere nas movimentações de mercado?

José Luis Oreiro: Não é possível quantificar seu efeito, mas a instabilidade observada nos preços dos ativos financeiros é, sem sombra de dúvida, resultado de mudanças na percepção de incerteza por parte dos agentes econômicos, ou seja, aquilo que Keynes denominava de estado de confiança. Quando a confiança se enfraquece, os agentes procuram adotar estratégias defensivas face a essa maior percepção de incerteza, o que os leva a demandar uma proporção maior de ativos líquidos, ou seja, facilmente conversíveis em meio de pagamento, nos seus portfólios. O resultado dessa “fuga para liquidez” é uma redução dos preços dos ativos menos líquidos como ações e títulos de dívida privados. A redução do valor de mercado desses ativos, se suficientemente grande, poderá tornar muitas empresas financeiras e não financeiras insolventes, pois os passivos dessas empresas têm geralmente seu valor fixo em termos da moeda corrente. É exatamente o que está acontecendo agora no Brasil e no mundo. A pandemia do novo coronavírus gerou um aumento da percepção de incerteza, a qual levou a uma queda do estado de confiança e a uma fuga para a liquidez. O resultado foi um movimento generalizado de queda dos preços das ações, aumento das taxas de juros sobre os títulos da dívida privada e desvalorização do câmbio nos países emergentes. 

Ed: A economia em equilíbrio a longo prazo é um ideal desejável? Por quê?

José Luis Oreiro: O equilíbrio de longo-prazo (ou longo-período) é impossível de ser obtido, pois os processos econômicos são fortemente path-dependents, ou seja, apresentam a propriedade de dependência de trajetória. Isso significa que durante o processo de convergência da economia para uma possível posição de equilíbrio de longo-período ocorrem mudanças endógenas nos parâmetros estruturais da economia que terminam por alterar a posição de equilíbrio para a qual a economia estava inicialmente convergindo. Usando uma metáfora: o equilíbrio de longo-período é um alvo móvel, no sentido de que o próprio ato de mirar o alvo para efetuar o disparo da arma acaba alterando a posição do alvo. Em tais condições é pouco provável que o alvo possa eventualmente ser atingido; e mesmo que seja, a posição do alvo ao ser atingido não terá nenhuma relação com sua posição original. 

Ed: Como conviver com a incerteza da liquidez em períodos de inflação?

José Luis Oreiro: Historicamente no Brasil a convivência com a inflação foi possível por intermédio da indexação de contratos, instituída formalmente pelo PAEG durante o governo militar. O problema da indexação, como sabemos, é que ela gera inércia inflacionária, ou seja, a tendência da inflação se perpetuar ao longo do tempo, mesmo na ausência de fatores que pressionem pela elevação dos preços. O problema foi (parcialmente) resolvido com o Plano Real, permitindo que o país pudesse ter novamente taxas anuais de inflação inferiores a dois dígitos. A eliminação parcial da indexação, contudo, manteve um elevado grau residual de inércia inflacionária, de tal forma que a manutenção da inflação em patamares baixos exigiu que a taxa de juros real fosse mantida em níveis muito elevados por quase 25 anos, tendo como efeito colateral a tendência a sobrevalorização da taxa de câmbio, causa fundamental da desindustrialização precoce da economia brasileira. 

Ed: Diante da inflação, como é possível controlar os preços sem inflaciona-los no futuro?

José Luis Oreiro: O fundamental é não permitir o retorno dos níveis de indexação de contratos que tivemos nos anos 1970 e 1980. 

Ed: Qual é o caminho para desindexar os contratos monetários atuais?

José Luis Oreiro: A desindexação é um processo relativamente simples do ponto de vista legal. Basta o governo aprovar um projeto de lei estabelecendo que a partir de determinada data todos os contratos vigentes no Brasil têm que ser obrigatoriamente expressos na moeda corrente do Brasil, ou seja, em Reais. Cláusulas de indexação passariam a ser, portanto, formalmente proibidas. O melhor momento para se adotar esse tipo de medida é precisamente agora, pois as previsões de inflação para 2020 recuaram para 2%. Nesse contexto, não haveria nenhuma perda significativa para os agentes no horizonte previsível. 

 

Referências usadas pelo autor:

Blecker, R; Setterfield, M. (2019). Heterodox Macroeconomics: models of demand, distribution and growth. Edward Elgar: Aldershot. 

Godley, W; Lavoie, M. (2007). Monetary Economics: an integrated approach to Credit, Money, Income, Production and Wealth. Palgrave Macmillan: Londres. 

Kregel, J. (1985). “Hamlet without the Prince: Cambridge Macroeconomics without Money”. American Economic Review, 75(2), pp. 133-139. 

Papadimitriou, D; Zezza, G. (2012). Contributions to Stock-Flow Modeling: Essays in Honor of Wynne Godley. Palgrave Macmillan: Londres.